A preparação do ator ou a fuga da atriz.
Amo mesmo teatro. Acho que vem de um sentimento puro e primitivo. Descobri que sou uma péssima atriz. Dizem que os bons atores nunca estão satisfeitos, mas ignorante é o ator que se sente completo, que acha que só porque atuou em um teatrinho bobo é ator de verdade. Meu diretor, Rui Cortez, tem me ensinado algumas coisas. Uma delas é que o estudo, antes de qualquer coisa, deve ser aplicado com cautela. Meu amor está defasado, com gosto de perda de tempo. Tudo que li, segundo ele, foi mal traduzido e que hoje sou uma atriz infeliz. Atores tendem ter um processo doloroso e um final divertido. Me dói o estômago em pensar que todos nós somos atores e falhos. Que essa sociedade não passa de um cárcere e que a instituição que hoje tento formar não passa de um Jardim Zoológico. “A história do Jardim Zoológico” do Albee é a peça que mais me machucou este ano. Uma peça escrita há mais de 50 anos, cuja história me fez chorar. Papai, mamãe, filhinhos, papagaio e o gato – o Jardim Zoológico.
O processo do ator blá blá blá, mas tudo poderia ser mais fácil. Lembrei de quando interpretei a Maria Clara, em “A Escada” do Jorge Andrade. Aquela personagem mais me ajudou como filha e neta. A personagem ajudando e orientando a atriz. Se interpretasse Peter, do Zoológico do Albee, em que o personagem me ajudaria? A tornar-me cada vez mais insana? Não quero mais pensar em Teatro do Absurdo quando leio coisas tão iguais a mim.
Quem somos nós? Quem é a criança retratada em “Quem tem medo de Virgínia Woolf”? Quem é Godot? Onde está a boneca daquela casa? Quem matou Odete Roithman? (Opa, escapei um pouco, mas não podia perder a piada!).
Eu simplesmente não sei.
Não sei quem sou, não sei o que quero, não sei mais quem é o teatro para mim. Sei afinar a luz, sei pensar no figurino, sei montar o cenário, só não sei quem é a atriz ali. Não sei mais se minhas escolhas foram certas e se não seria mais feliz se tivesse escolhido ser jornalista a trabalhar numa assessoria de imprensa qualquer. Ser atriz é uma barra. Formar-se atriz, pior ainda.
Uma grande amiga, Nana Yazbek, diz que todo processo que a machuca é melhor. Ela gosta de ser dilacerada pelo diretor. Gosta de sair aos prantos por ter ou não encontrado sua personagem. Há muito tempo não sou dilacerada. Tenho colocado os pés na água enquanto a onda vai e vem. Não mergulho mais de cabeça e não sinto a água salgada no meu rosto. Há muito tempo não sei o que é doar meu corpo para uma história. Estou em crise. Desculpe-me!
Escrito por Clareador Cerebral às 09h47
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