Socorro!
Bateram nos meus irmãos e eu assisti de camarote. Trancada no carro com ar condicionado. Ainda estou indignada comigo, decepcionada e com vergonha. Não fiz nada. Fiquei quietinha, com o carro parado e uma lágrima escorrendo. Me deu vontade de ligar para minha mãe, mas tive medo também. E só pensar que minutos antes eu buzinei para eles, como se dissesse: Ei, estou aqui, mas queria estar aí! Ou não, na verdade.
Aquela avenida ficou cinza e cheia de fumaça. Eu não pude mais enxergar. Me restava ficar sozinha e fazer parte daqueles que não se importam, mesmo com um aperto no peito insuportável. Há muito tempo te abandonei, não é Dona Política? Então pra quê me indignar? Não posso, não é? O que eu fiz? Amarrei minhas mãos por dois anos apenas por não acreditar mais em você e hoje senti sua falta. Falta de ser sua filha, assim como aqueles que sofreram e foram agredidos.
Também tive vontade de colar adesivos no carro e dizer que é um absurdo um país parar devido à visita de um mito-rico-caipira-dominador de petróleo. Mas não... Novamente fui apática e me decepciono comigo. Em que me tornei, me diz? Numa pequena burguesa ridícula tentando sem feliz. Ahhh, foi-se o tempo em que pensava dizer algo para que as pessoas pudesses ser melhores. Foi-se o tempo em que me importava, comparando tubarões com homens, orientada por Brecht.
George W. Bush chegou aqui no Brasil às 17:30. Não sei ao certo nem se chegou. Um marco na história do país, talvez. Posso dizer aos meus futuros filhos o que vi e presenciei. Esta noite fiz questão de desligar o rádio, a TV e a página principal do meu provedor. Não quero saber... Já vi demais. Lembrei-me de um tempo em que era uma ditadura declarada, cujo conhecimento só tive através de livros, fotos, filmes e histórias.
Vi pessoas agredidas hoje por nada. Elas foram agredidas simplesmente por almejar a liberdade.
E eu, à tarde, preocupada com o rodízio de placas em São Paulo. Agradecida pela segurança na região do Morumbi ao ir a uma reunião com uma cliente chata da agência em que trabalho. Que ironia...
E sim... Estava na Paulista no momento da manifestação contra a dominação norte americana, contra o petróleo, contra o Bush, contra a Guerra (eterna) no Iraque e contra essa merda de vida que a população brasileira vive.
Em que mundo EU vivo, me diz?
E se você puder, me salve?
Escrito por Clareador Cerebral às 19h13
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Todo dia é dia de Maria
Depois do alarde, achei melhor contar uma história. Simples e que me remete a tantas lembranças, cujo caminho para o começo desconheço.
Quando pequena, sempre fui ligada, ou melhor, sugada pela minha avó paterna. Devo a ela mil brincadeirinhas no quintal, ida ao clube, histórias para ninar e essa coisa toda (boa) da classe média. A ela devo referências de mil coisas e oxalá que a véia saiba!
Já minha avó materna, a Dona Cida, não me ajudou objetivamente em nada. Era uma avó comum. Mas lembro como se fosse hoje do cheiro de sua sopa e de suas verruguinhas abaixo das axilas. Minha avó brincava que aquelas verrugas eram minhas, porque eu podia passar horas e horas brincando com aquilo. Hoje penso que isso pode ser um pouco bizarro, mas não me importo. Ela me chamava de Cretina, porque fui uma degustadora de sabão em pedra. Era só comer essa delícia, que gritava: “Quetina, Quetina”, assumindo o apelido dado.
O eclipse da Lua veio sábado e não assisti. Mas com o auê da mídia, lembrei de uma coisa muito marcante. Há mais ou menos 15 anos, assisti a esse fenômeno no quintal de Dona Cida. Estava eu, minha irmã e minha avó dependuradas na grade da mureta. O jardim estava coberto de rosas e era uma noite fresca. Minha mãe estava à nossa frente, sentada no banco do carro. Minha mãe tentava muito chamar à nossa atenção para uma musica a tocar no k7. Era sua parceria com Itamar Assumpção. A música: Quantidade – na voz do negão. Lembro exatamente como era o timbre desta voz, como ele cantava cada palavra do ventre de minha mãe. E lembro da minha avó, humilde, beijando minha mãe e dizendo que se honrava daquilo. Pra falar a verdade, não lembro se foi “honra” a palavra usada, mas tinha esse significado. Posteriormente, Quantidade foi gravada por Alzira Espíndola e a versão original com a voz de Ita nem deve existir mais.
Foram poucas as vezes que vi Dona Cida demonstrar carinho aos filhos. Com netos era mais que babona. Depois do câncer, ela se tornou mais aberta e boca suja. Não tinha medo de expressar seus sentimentos e até manipulava a todos com isso. Lembro que pouco antes de falecer, essa Senhorinha, com a boca toda desdentada, pediu um beijo de língua a um ex-namorado meu. Se ele deu ou não, é papo pra uma outra história! (risos)
Estou apreensiva ainda e com saudade da vó, pois há bem pouco tempo minha mãe me falou de seus pais. Era um sábado e Dona Vera Motta parecia uma menina contando uma fábula. Será que não era? Sei não, mas essa coisa de família traz à tona tantos sentimentos opostos, que termino esse texto com vontade de gargalhar e chorar ao mesmo tempo.
(Amo vocês, viu Marias?)
Escrito por Clareador Cerebral às 23h30
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