"Por que publicar o que não presta? Porque o que presta também não presta. Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão." (Clarice Lispector - Nota Prévia - Livro Para Não Esquecer - Ed.Rocco - 1999)
Pela primeira vez gosto realmente de algo escrito por Clarice. Não sei se porque li em Berenice disse, mas me assustou tamanho peso destas palavras. E neste mesmo dia, conversara tanto sobre certas coisas que me assustei. Estou velha. Um peso sabido. Um dia ele apareceria, claro! Mas hoje, me olho no espelho e sou uma mulher. Meu corpo se prepara para tantas coisas nunca vividas. Sei onde dói ou onde me dá prazer. Sei como pensar, e seria mais fácil conviver com a imaturidade.
O caos instalou-se na cidade e não conheço ninguém que vivera em tempos de tragédias para saber se fora assim. Ano 2007. Brasil. Marcado por presidentes, papas e aviões, por enquanto. E a minha vida, marcada por teatro, família, profissões, aspirações, convivência. Juro, aos 15, sonhava que seria uma adulta bem parecida com quem sou hoje. Com alguns quilos a menos, talvez. Mas nunca teria parado de sonhar. Já escrevi sobre isso este ano e torno a escrever: Em que me tornei? Numa medíocre. Decepciono-me comigo, uma espécie de ex-militante de algo maior. Poxa, se eu tivesse 60 anos, vá lá, mas não, tenho 24.
Anteontem na parte da noite, ocorreu um desastre com um avião de certa cia aérea no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Não sabemos ao certo o que aconteceu, mas todos os tripulantes e passageiros morreram carbonizados. Entre eles, algumas senhoras de um grupo político chamado Sinapers (Sindicato dos Aposentados e Pensionistas do Rio Grande do Sul). A maior parte destas mulheres tinham 70 ou 80 anos. Acredito que, entre todos os mortos, essas sejam heroínas. Mulheres em visita à São Paulo, divulgando e lutando por uma causa: Propostas para a flexibilização do pagamento de precatórios (dívidas do governo) no país. O Brasil devia a elas bastante dinheiro. E agora, o que deve mais?
Sempre em períodos de “guerra”, volto a sonhar. Agora, prefiro lutar para que eu não perca os meus ideais. Que eu volte a falar de arte como realmente a minha vocação e trabalhe para ela como uma mulher de verdade. Por favor, não permitam que eu esqueça disso. Meu coração clama por mais romantismo. Não agüento mais, não agüento mais.
[*Berenice disse é o blog de Regiane Rodrigues, que sutilmente conseguiu fazer desta catastrofe uma poesia. Forma mais artística do registro, ao meu ver]