Perdedora
Hoje meu maior desejo é tomar um porre. Daqueles gostosos, de sair gritando na rua e contando toda a minha vida aos seguranças de padaria afora. Também adoraria comer muito. Um pedaço de picanha com cerveja e limão, feijoada, comida mexicana, japonesa, chinesa e comeria de sobremesa um Petit Gateau só para fingir que entendo alguma coisa de culinária francesa. Também pegaria o celular e faria ligações para todos os antigos amigos, amigas que estão longe, pessoas saudosas e que me remetem a um passado nem tão distante. E diria a eles com toda a falsidade do mundo: Minha vida é ótima, claro! Por isso estou bêbada as quatro da tarde! Para comemorar a infelicidade de ser alguém. Também diria algumas mentiras, que saí com o fulano enquanto estava passando férias no Hawaii, ou lembraria daquela noite em que um ator global numa gafieira no Rio me chamou para dançar. Desta história, emendaria que dançamos de rosto colado e que depois fomos ao arpoador ver o sol nascer, e que ele me deixou no Aeroporto com lágrimas nos olhos dizendo que nunca me esqueceria. Também faria meu discurso clássico do Oscar, ainda a ser recebido por mim. Faria caras e bocas, simularia lágrimas e “thanks to my family, that have supported me since I was a girl”. Veja só se eu posso me agüentar? Mas com certeza diria que se eu morresse hoje, meus sapatos deveriam ser doados para instituições de caridade ou para algumas amigas bregas que não sabem o que vestir. Também relembraria todas as dores e casos de amor. Deveria escrever sobre eles, um capitulo para cada pedaço dilacerado do meu coração, e que parece não ter fim. Cada dor de amor é diferente. A gente sabe que nunca mais vai passar por certas coisas e não passamos mesmo. É uma vacina! Mas abrimos pedaços fechados de nós e de repente dói, como algo fulminante. Poxa, e a vacina meu Deus? Um inferno. Juro que se pudesse, hoje escreveria um manual, daqueles que eu mesma pudesse seguir. Mas posso garantir que não choro mais. A lágrima está presa nos meus olhos, doendo meu nariz, atacando minha sinusite. Mas ela não vai sair porque eu não vou deixar. Porque eu sou forte, porque hoje o dia está cinza e eu não posso ficar com olheiras. Não tomei o porre que queria. Se fumasse, acenderia um cigarro com certa melancolia e talvez deixasse fluir. Ouço Style Concil e aperta a garganta.
Escrito por Clareador Cerebral às 11h33
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