Idade do Lobo
Eu senti que não te amava mais quando olhei para o lado durante a madrugada e não vi certa beleza de mulher. Seus olhos piscavam rápidos, como se sonhasse com algo que eu não pudesse saber. Era aniversário, não fazíamos há dois meses. Eu, na verdade, não queria te dizer o que doía, mas te deixava dormir ao meu lado, pois precisava de seu cheiro. Precisava que você dissesse que estaria comigo até o fim da vida mesmo que eu quisesse fugir.
Neste mesmo dia em que percebi que não te amava, levantei-me da cama e não tive mais coragem de te olhar. Comi o resto do frango que estava na geladeira. Li algumas palavras em um livro, cuja história não me lembro. Vi Tela-Quente na televisão e sem perceber, comecei a chorar diante a guerra que passava frente a mim. Vivi aquela vidinha medíocre e nunca pude te dar o que havia de melhor em mim. Nunca houve nada melhor em mim. Sempre gostei de mentir, dizer que seríamos como os grandes casais da história. Você feliz. E eu tento adormecer no sofá.
No fundo, não teria tido uma vida diferente com qualquer outra mulher. Talvez filhos menos inteligentes. Ou não. Ou filhos mais bonitos. Ou não. Teria uma outra mulher, e outros problemas, e tenho certeza que levantaria no meio da noite, olharia para esta outra mulher, e sentiria que não a amava mais.
De manhã, você me acordou no sofá e disse que era para eu partir. Que as crianças iriam viajar com a Tia Jane e que era melhor. Tomei um susto, ainda estava com o gosto de frango da madrugada. Era um sábado.
Chorei. Não me julgue. Não me chame de falso e muito menos de piegas. Chorei. Misturaram-se tantas coisas. Devia ter dito a verdade. Devia ter tentado te amar mais. Devia ter pensado mais em mim. Devia ter pensado mais em você. Quando te conheci naquele baile, tive certeza que queria cometer todos os erros da vida com você. Previa o que aconteceu, mesmo assim, chorei nos seus braços, sorri com seus primeiros beijos, me apaixonei e me desapaixonei. Acho que ainda te amo.
Escrito por Clareador Cerebral às 15h26
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