Ana,
Ontem foi um dia de verão típico. Caiu o mundo por aqui e eu, dirigindo a vinte por hora na Paulista e vendo aquelas gotas escorrerem pelo vidro, pensei em escrever algo para você. A saudade sempre bate, mas ultimamente, ela chega com nuances de nostalgia e lembranças. O vento fazia um barulho horrível e eu estava tensa de medo. Lembrei de certa vez, quando fomos pescar com o Papai e com o Vovô. Chovia muito, e o bote balançava. Nunca os vi com tanto medo. E lá estávamos nós, meninas, com seus coletes salva-vidas curtindo um dia de verão. Não sei se a decorrência é fruto da minha imaginação, mas quando chegamos, Mamãe estava preocupada e deu uma bronca enorme em nós todos.
Ainda não fui para praia este ano, imagino que você, morando perto do mar, esteja com frio, mesmo não nevando por aí. Aqui, o calor nos toma de uma forma estranha, parece que não temos mais as estações do ano definidas. Falta também o meu olhar jovem, já esquecido, pensando em quantas coisas eu faria ou não neste Janeiro. Antes, concentrava todas as minhas angústias e anseios em Dezembro, e os lavava com um verão digno de uma adolescente cheia de histórias.
O carnaval está próximo. Sem marchinhas ou festa de rua. Sem vontade da diversão de quando ainda éramos meninas. Meninas que choravam, sofriam e lutavam, responsáveis pela formação de quem somos hoje.
Tenho medo em dizer que sinto a sua falta, pois não posso pressioná-la. Mas se olho para o céu, tenha certeza que me lembro de ti. Minha irmã mais velha, minha heroína de tantas horas. Nossa vida de novela é tão preciosa. Quero desta vez, desfrutar de uma vida adulta ao lado da mulher que amo, mesmo que em uma visita, e voltar a uma infância cheia de histórias. Somos privilegiadas! Educadas, “perfeitinhas”, as filhas que todos pediram a Deus, sem modéstia. Você fugiu de mim quando cresceu, e agora, que preciso tanto de ti, estou crescendo sozinha. Saiba que não seria nada sem você.
Com amor,
Mariana
Escrito por Clareador Cerebral às 11h11
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