sunday, bloody sunday ou para quê tanta merda no mundo?
Lembrei do Cris e sempre que isso acontece, tenho crises artísticas. Ele foi um grande amigo e quando o perdi, fiquei um certo tempo sem entender a efemeridade da vida. Seu funeral foi, sem dúvida, o mais triste em que estive. Não que existam comemorações fúnebres, mas estava repleto de artistas e jovens artistas. Urna lacrada.
Era uma segunda-feira e não pude acreditar ao receber aquele telefonema. Semanas antes, me desloquei até Cangaíba, Zona mais que Leste de São Paulo, para assistir seu espetáculo. Sempre disse que o Cris era um ator vocacionado. Não era talentoso, mas esforçado. Sua não-consciência corporal e seu problema com a dicção limitavam seu ofício, porém, lembro de momentos sublimes em que o vi no palco. Nesta última vez, ele estava inteiro em cena. A perseverança dele me fazia continuar, me fez procurar outros mestres que acreditassem que era (e sou, graças a muitos) uma atriz. Uma vez, depois da aula na faculdade, fomos almoçar. Cris falara de seus projetos e porque fugia do roteiro ABC para a periferia de São Paulo em busca de sua arte. Seus olhos brilhavam ao falar da Cia. Estável, sua família, agora paulistana, fazendo circo e brincando de ser artista profissional quase que pela primeira vez. Agradeceu-me por ter feito sonoplastia e iluminação em seus infantis e prometera me ensinar a usar massa na hora de compor uma maquiagem mais difícil para um espetáculo. Discutimos a vida, os amores e o quanto era difícil ser veado e ator no ABC. Eu ri com esta constatação. Ele ainda me disse que deveria esperar, pois algo grande viria para mim e que eu devia investir em direção e dramaturgia, pois gostava da plástica da “coisa”. Acho que até hoje não fiz nenhuma dessas duas direito. Parei de atuar quando ele faleceu. Fugi. Mas depois voltei.
Esse almoço aconteceu há mais ou menos 6 anos. Ou 5, não sei bem.
E lembrei da voz do Cris ao ter contato novamente com a Cia. Estável. Ela está caminhando de vento em popa com uma pesquisa em um abrigo de moradores de rua no Brás, centro de São Paulo. Nei, um de seus mentores até hoje, foi contratado para uma oficina de circo pela instituição pública em que trabalho.
Ofício é mais ou menos assim.
Saudade deste mais que amigo, quase que um professor. Meu amigo de teatro.
Se eu fosse mais nova, diria que ele virou um anjinho dionisíaco que está nos protegendo e o invoco cada vez que grito “merda” antes de entrar em cena.
“Merda” para você viu?
E paz para o mundo. Porque a gente não merece se fod%# tanto!
[Cristiano era ator, um dos criadores da Cia. Estável, estudante de Radio e TV e professor de teatro infantil na Fundação das Artes de São Caetano do Sul. Foi assassinado numa madrugada de domingo para segunda anos atrás. Ele saiu do espetáculo em Cangaíba, se despediu de todos e foi para casa. Seu corpo foi encontrado próximo de sua residência, onde morava com os pais, em Santo André. Disseram que ele não estava sozinho, estava acompanhado de um travesti, que também foi morto. As más línguas dizem que foi a polícia. A polícia diz que foram alguns Carecas do ABC. O caso nunca foi solucionado. E meu amigo se foi.]
Escrito por Clareador Cerebral às 11h33
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