a coca light roubou meu troféu
Quando ela sorriu, de dentro do carro, tive certeza que iria morrer. Ou que ela me mataria com aquelas covinhas tão antigas como nossa relação. Tudo bem, eu sei que não devo dizer “relação”, quando foi somente uma historinha para se contar e um troféu juvenil, mas gosto de conversar com ela e o pior é que a guria sabe.
Abraçou-me. Teve tanta certeza de seu charme a ponto de zombar meu modo estranho de cumprimentá-la, meio jeca. Sentamos naquele mesmo bar. Dessa vez, pedimos uma única cerveja, sinal que os tempos são outros. Depois da cerveja, somente um refrigentante light. Coisa de mulher. Mas queria dividir, portanto, foi o light mesmo.
No papo de boteco, surgiram dezenas de assuntos. Ela mexia no cabelo e isso me enfeitiçava de tal forma a não prestar atenção em nada do que ela dizia. Estava até um pouco chata. Não me culpe por julgá-la, mas os anos tiram o brilho de nossas meninas, não adianta. E a mulher à minha frente apenas suplicava por um pouco de atenção. E era tudo que eu não podia dar.
Fui covarde ao fugir de sua boca, levemente entreaberta. Aquele órgão me levaria às lembranças, sempre em fuga de minha mente. Falava de seus amores, do seu suposto divórcio e do quanto sentia falta da juventude. Ela tocou no assunto do meu jipe. Eu lembrei de quando a toquei no meu outro carro, o popular básico que veio depois da minha máquina russa beberrona à gasolina.
Em certo momento, Amanda me perguntou se fora minha única paixão mal resolvida, gargalhando crente de minha resposta. A surpreendi, dizendo que não. Citei as últimas paixões e que, apesar de muito bonita, ela é uma amiga surpreendentemente especial. As palavras a atordoaram, assumindo então o significado que eu tenho em sua vida. Um capitulo colorido em sua história.
Ficamos mudos.
Preferi pedir a conta. Queria caminhar até minha casa, mas a menina das covinhas fez questão de me levar para casa. Seus cabelos claros brilhavam contra a luz artificial dos postes encostados às casas simples da rua. Esperava um beijo. Mas não senti vontade de dá-lo. Percebi, pela primeira vez, o quanto estou me desfazendo dos troféus de minha juventude.
Escrito por Clareador Cerebral às 20h47
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